Vencemos a descrença!

Lendo as matérias referentes à Copa do Mundo, estou até agora tentando não acordar desse sonho simplesmente maravilhoso que foi ter participado da equipe do Comitê Organizador Brasileiro da Copa do Mundo da Fifa 2014 – COL. Sendo um dos Diretores da AJEM – CONSULTORIA E TREINAMENTO EM SEGURANÇA LTDA, estou orgulhoso de ter dado uma pequena colaboração como Security Venue Manager (Gerente de Segurança de Sede), não só em nosso estado, mas também nas cidades do Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre, Manaus, Curitiba, São Paulo, Belo Horizonte e Aracaju, onde trabalhamos diuturnamente em parceria com todas as áreas afins das equipes do COL/Fifa.

Sabíamos dos desafios que era mudar um paradigma, de criarmos uma nova profissão que, além de ser algo muito importante no quesito social, daria novas oportunidades de trabalho a milhares de pessoas. Refiro-me aos stewards, agentes de segurança interna, com atuação consagrada nos jogos da Copa, que foram considerados peça fundamental no novo conceito de segurança não confrontacional que o Comitê Organizador da Copa do Mundo da FIFA implantou nos estádios brasileiros. Os stewards ficaram como um grande legado e agem como organizadores dentro dos estádios, fazendo com que o local seja um ambiente familiar, onde o torcedor é tratado como um cliente.

O desafio foi também o de trazer uma ambiência de paz aos estádios. Para isso, foi muito importante a colaboração das forças públicas que realizaram o trabalho de contenção em todo o perímetro externo da Arena e nas salas de pronta resposta do estádio, que ficaram à disposição para emprego sob demanda. Através dessa colaboração, criaram-se condições para ações de intervenção qualificada em ocorrências envolvendo o público assistente das partidas. As forças públicas também foram fundamentais no trabalho de orientação dos stewards nos Mags and Bags (Portais Eletrônicos e Esteiras de Raio X) instalados nos portões de acesso destinados à abordagem.

Sabemos como foi difícil chegar a esse entendimento. Mas deixo aqui meus elogios aos torcedores e às forças públicas que foram fundamentais e importantes neste processo da Copa.

Esperamos que este legado permaneça nos estádios — é assim que se fazem as grandes mudanças: passo a passo, mas com persistência. Foram disputados seis jogos na nossa Arena Fonte Nova, lidamos com inúmeros questionamentos sobre nossa capacidade de organizar e sediar um evento tão grandioso quanto a Copa. Comentários como “Não estamos preparados”, “Vamos passar vergonha” e “Temos outras prioridades, não devemos gastar tanto com uma competição de futebol” se tornaram comuns.

Parte da mídia e da população demonstrava extremo pessimismo em relação ao que poderia acontecer quando a competição iniciasse. Havia preocupações quanto aos aeroportos, turistas mal atendidos, protestos nas ruas e problemas nos estádios — incluindo os Centros de Treinamentos de Pituaçu, Barradão, Praia do Forte, Porto Seguro, Campo Bahia em Santo André e Batistão em Aracaju, todos sob responsabilidade da Gerência de Segurança sediada em Salvador. Tudo isso foi devidamente administrado e sanado.

Isso se tornou plenamente evidente quando a Copa iniciou, no dia 12 de junho, e a festa tomou conta das ruas com torcedores de todo o planeta. Mais de 300 mil pessoas passaram pelo nosso estádio, com uma média de 50 mil por partida. A nossa Arena foi eleita o estádio baiano como o melhor entre os 12 que receberam jogos da Copa do Mundo no Brasil. A pesquisa realizada pelo site UOL ratificou os dados obtidos durante a Copa das Confederações de 2013, quando os torcedores também se sentiram mais seguros.

Sim, fomos muito bem! Com muito profissionalismo, engajamento e entrega, colaboramos para que o sonho de todos se tornasse realidade — mesmo o Brasil não ganhando a Copa.

A Bahia fez parte da estratégia do maior evento midiático do planeta, com bilhões de espectadores em audiência acumulada de todos os jogos, superando vários recordes. Realmente, a Bahia colecionou números inéditos, desde o “Tour da Taça”, que esteve em Salvador nos dias 30 de abril e 1º de maio, atraindo milhares de pessoas. Outro dado positivo foi o que aconteceu antes da partida entre Bélgica e Estados Unidos, quando bilhões de pessoas assistiram à mensagem “Pela paz e contra o racismo” exibida pelos jogadores. Que outra ocasião a Bahia teria para propagar causa tão nobre e pertinente?

Pensemos na competição em si, que trouxe em seu bojo um espírito de coletividade. A vitoriosa Alemanha, que acompanhamos desde a escolha de Santo André, distrito de Cabrália, para ser seu Team Base Camp (hotel e campo de treinamento), demonstrou a importância da coletividade, do entrosamento, do trabalho a longo prazo e da simpatia. O que lhes trouxe a conquista da Copa foi o empenho coletivo. Podemos afirmar, sem titubear, que a Copa do Mundo 2014 conquistada pelos alemães foi uma Copa que vinha sendo desenhada, estudada e jogada há mais de seis anos.

Concluindo, vamos ter que deixar o empirismo e partir para inovar, planejar, monitorar e atualizar nossos conhecimentos. Para isso, temos que sair do imaginário mundial — como ficou patente quando turistas estrangeiros conheceram nossos pontos fortes, a diversidade cultural e a receptividade do povo brasileiro.

O momento é de total reflexão para dirigentes do país, empresários, políticos, treinadores, atletas e torcedores, que precisam aceitar que o título de “País do Futebol” não existe mais. Agora é hora de mudar, para voltarmos a ser campeões. E que venham antes outros títulos — como o país da Educação, da Saúde, da Justiça Social, do Esporte como um todo, etc. Temos que acreditar e ajudar a transformar em verdade esse dom de sonhar do brasileiro.

Por Nilton Regis Mascarenhas

Nilton Regis Mascarenhas, sócio-diretor da AJEM.